Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Fantasia



Era um dia de chuva. Pequenas gotas rolavam pelo seu rosto entristecido pela idade. Mas não era apenas a chuva... eram também lágrimas.
- Nada me corre bem - pensou ela.
E de facto, parecia que o céu tinha desabado sobre o seu desesperado ser... Poderia ela voltar atrás? Poderia a vida sorrir-lhe outra vez? Nada nem ninguém iria responder.

Caminhou sem rumo, ao longo das ruas e calçadas da cidade empanturrada de almas magoadas e solitárias. Os encontrões que levou dos restantes transeuntes não foram suficientes para acordá-la do estado hipnótico em que se encontrava. As luzes enfraquecidas pelo nevoeiro (ou talvez pela poluição) tremeluziam levemente e a chuva continuava a cair, escorrendo pelo seu corpo entorpecido. Os carros aceleravam na estrada cheia de água, espalhando chuviscos pelo passeio e molhando ainda mais os peões. Decidiu retirar-se da confusão dirigindo-se para uma ruela. Seguiu, sem olhar para trás, por becos e vielas, enquanto se mantinha absorta em retrospectivas de vida, que nunca iriam levá-la a lado nenhum.

Parou. Já não sabia onde se encontrava. O lugar aparentava ser opressivo e inóspito. A rua estava deserta e tudo indicava que, se fosse atacada, nenhuma vivalma iria socorrê-la. Começou, então, a correr desenfreadamente, fugindo de tudo... do medo, do vazio, da solidão, do Mundo. De repente, tropeçou. Caiu. E deixou-se cair. Desejou, até, nunca mais se levantar. A poça era profunda, tão profunda...
- Mas a chuva não é salgada! - pensou - Terei chorado assim tanto?

Continuou estendida no chão, a cara coberta por um profundo manto de água gélida. O sabor a sal continuou a penetrar nas suas entranhas, mas inexplicavelmente, o seu corpo recusava-se a despertar. A falta de ar começou a absorvê-la. Sentiu que estava a ser sugada. Pensou na vida e nos acontecimentos que a tinham levado ao desespero. O abandono do pai quando ainda era criança. A brusca perda da mãe ainda recente e muito presente no seu âmago. As desavenças ideológicas com o patrão e o consequente despedimento. A carência de algo, de alguém, de tudo. A falta de ar. Ai... a falta de ar!!!
- É a única coisa pela qual ainda posso lutar!!! - O corpo voltou à vida.
Tentou levantar-se, mas toda ela estava coberta por água. Muita água. Água em demasia para um pequeno charco produzido pela chuva. E bastante salgada. Olhou à sua volta, submersa na escuridão. Não viu nada. Começou a espernear e a bracejar. Nadou. Nadou. Nadou. Mas nem um sinal, nem uma luz. Os pulmões começavam a ceder. Recordou as brincadeiras de infância, os namoros e amizades de adolescência, os anos de faculdade, os almoços animados com a mãe, sempre bem disposta. Lamentou não ter tido oportunidade de pedir desculpa àqueles que, involuntariamente, teria magoado. A vida esvaia-se e havia ainda tanto por fazer... tanto por dizer.

E finalmente, quando aparentava não haver saída possível daquela imensidão líquida e que ia morrer, viu uma sombra. A sombra de uma mão que se abria para acolher a dela. Estremeceu... A energia que aquele membro transmitia fez com que ela sentisse de novo esperança.
Atingiu a superfície e não morreu. Os pulmões recuperaram, lentamente, o fôlego e ela gemeu. Olhou à sua volta. Só a água e o céu azul se estendiam à frente dos seus olhos. O sol brilhava e o único som que chegava aos seus ouvidos fazia lembrar as ondas do mar.
-Água... Sal... Ondas... Mas como vim eu parar ao Mar??? - balbuciou.

A mão forte continuou a arrastá-la, juntamente com a corrente. Sentiu-se extremamente cansada. Molhada. Fria. Entorpecida. Não sentia os membros e o corpo deu-se por vencido. A visão começou a turvar. E perdeu os sentidos.


Não sei se esta "Fantasia" algum dia terá fim...
Nem se terei habilidade para lhe dar continuidade...
Sendo a escrita o meu refúgio, deixei que ela fluísse pelo teclado.
Guiou-me até aqui, hoje.
Poderá ela me transportar mais longe?
Não sei... O tempo o dirá...


1 mensagens de se lhe tirar o chapéu:

PTT disse...

Obrigado pelos comentários mas tenho tido uma vida profissional extremamente complicada, que me impede de dar "assistência" ao blog.

Contudo os meus mais sinceros agradecimentos

PTT